Foi o New York Times que deu a notícia em primeira mão. Foi anunciado que 12 dos clubes mais ricos do planeta se uniram para criar um torneio que prometia "abalar as estruturas, economias e relações que uniram o futebol mundial por mais de um século". A ideia é o torneio seja disputado dentro do atual calendário, com as partidas acontecendo no meio de semana, competindo diretamente com os torneios nacionais e internacionais.
Os 12 clubes fundadores são da Inglaterra (Arsenal, Liverpool, Manchester United, Manchester City, Chelsea e Tottenham), Itália (Milan, Juventus e Inter) e Espanha (Barcelona, Real Madrid e Atlético Madrid). No entanto, mais três clubes ainda são esperados antes do início da competição (PSG, Bayern de Munique e Borussia Dortmund inicialmente se recusaram a fazer parte da Superleague).
Para capitanear a empreitada, o mandatário do Real Madrid, Florentino Perez, foi o escolhido para ser o presidente. Segundo ele, a Superleague tem o objetivo de "ajudar o futebol em todos os níveis e levá-lo ao seu lugar de direito no mundo".
"Ajudar o futebol em todos os níveis". Para saber se isso é realmente verdade, precisamos entender como funciona o futebol europeu nos dias de hoje. O sistema atual divide a Europa em ligas nacionais, com competições internacionais disputadas entre os clubes mais bem posicionados em suas respectivas ligas domésticas: a Champions League é o palco de maior prestígio do futebol de clubes europeus nos dias de hoje.
Nesse formato, milhões, se não bilhões de dólares ficam concentrados nas mãos dos gigantes europeus, que arrecadam esses valores através de patrocínio e de direitos de transmissão dos seus jogos domésticos e de suas partidas na Champions League. Sendo assim, clubes de menor expressão também se beneficiam, pois ao enfrentar os gigantes do futebol, recebem parte do dinheiro gasto para transmitir seus jogos e conseguem melhores acordos de patrocínio.
É aí que o formato proposto pela Superleague causa um abalo sísmico em toda a estrutura do futebol: caso venha de fato a acontecer, retira da Champions League o seu principal ativo, que é a participação dos gigantes do futebol. Dessa forma, quem manda nas transmissões de televisão não vai ter mais motivos para colocar dinheiro, assim como as dezenas de patrocinadores. Ou seja, a Champions League e as Ligas Nacionais perdem seu maior atrativo, enquanto os clubes de menor expressão também perdem sua maior fonte de receita.
Quem está por trás do investimento na Superleague é o banco norte-americano JP Morgan. Segundo o anúncio, foram investidos aproximadamente 4,2 bilhões de dólares. Isso significa que cada clube fundador receberá algo em torno de 400 milhões de dólares, valor que supera em quatro vezes o recebido pelo campeão da Champions League em 2020.
A ideia da Superleague é, portanto, fazer um modelo que se assemelha ao das ligas esportivas dos Estados Unidos, como NBA e NFL. Essas ligas contam com um número fixo de equipes ou franquias, que têm sempre um lugar garantido na próxima temporada (não há sistema de rebaixamento), além de serem bastante niveladas em termos de competitividade. Porém, esse sistema não pode funcionar no futebol, e eis o porquê:
Financeiramente e esportivamente falando, a ideia é ótima para os clubes fundadores. Mais dinheiro, um futebol teoricamente mais bem jogado entre os melhores times do mundo e os torcedores sempre podendo assistir aos melhores confrontos toda semana. É assim que a NBA e NFL funcionam e é assim que pretende funcionar a Superleague.
O que esquecem os fundadores é que o esporte tem, além do lado financeiro, um lado tão grande quanto, se não até de maior importância: o cultural. Os americanos estão acostumados a viver isoladamente. A NFL é um torneio de um esporte que somente eles dominam. A NBA tem regras diferentes das praticadas por todas as outras ligas de basquete do planeta. Até mesmo nos sistemas de métricas os americanos gostam de se isolar. Portanto, eles não se importam de ter apenas torneios internos de esportes que a sua cultura e estilo de vida definiram como seus.
Em contrapartida, o futebol tem raízes culturais de todas as partes do planeta. Surgiu na Inglaterra, ganhou magia no Brasil e África e vem gradualmente ganhando espaço e olhares do continente asiático. Há quase um século é disputada a cada 4 anos a Copa do Mundo, que é a maior celebração dessa diversidade cultural. Monopolizar o melhor futebol do mundo na mão de 12 clubes para que eles desfrutem dos lucros e possam oferecer o melhor futebol do planeta não é, como disse Florentino Perez, ajudar nem democratizar o futebol. Muito pelo contrário. É um dos maiores crimes já cometidos no esporte que mais de 4 bilhões de pessoas amam e vivem ao redor do mundo.
A graça do futebol não é ver gigantes jogando entre si toda semana. É a magia de ver um clube de pouca expressão, como o Leicester, ganhar a Premier League. É, de quatro em quatro anos, flamenguistas e vascaínos esquecerem a rivalidade e torcerem juntos pela seleção brasileira. É ver seu time de coração enfrentando equipes de todos os tamanhos e histórias e, ocasionalmente, disputando com outro gigante a glória eterna. Aqui, essa glória é a Libertadores. Na Europa, a Champions League que eles estão tentando aniquilar.
A FIFA e UEFA já se posicionaram e ameaçaram banir todos os clubes fundadores das ligas que participam hoje. Além disso, os jogadores desses clubes serão proibidos de participar de jogos por suas seleções. Ou seja, a Copa do Mundo pode ficar sem seus principais craques no futuro.
A Premier League "condena qualquer proposta que atente contra os princípios da competição aberta e do mérito desportivo, que estão no cerne da pirâmide do futebol nacional e europeu". Para a La Liga, a nova competição é "elitista e separatista".
Ainda é cedo para dizer o que vai acontecer no futuro. É correto, no entanto, afirmar que interesses comerciais de poucos clubes não devem levar à abolição da solidariedade e união do futebol.

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